O Grupo Europeu de Especialistas sobre Bioética não vê argumentos convincentes que justifiquem no momento a clonagem de cabras, vacas ou porcos para obter alimentos, como carne ou leite, e tem "dúvidas" de que isso seja ético, devido ao possível sofrimento do animal, segundo um relatório divulgado no dia 17.
O organismo remeteu à Comissão Européia (CE) um parecer no qual opina sobre os aspectos éticos da clonagem animal a fim de produzir alimentos, após um ano de reuniões e consultas.
No relatório, o Grupo indica que "tem dúvidas sobre se a clonagem animal para obter alimentos se justifica eticamente, considerando o nível real de sofrimento e os problemas de saúde" tanto do animal a partir do qual a clonagem é feita como dos clones.
Quanto à sua descendência, o Grupo diz que a questão está aberta a novas pesquisas científicas.
O organismo acredita que, atualmente, "não há argumentos convincentes que justifiquem a produção de alimentos de animais clonados e de suas crias", segundo o relatório, enviado ao presidente da CE, José Manuel Durão Barroso.
Os especialistas afirmam que se no futuro fossem introduzidos no mercado europeu alimentos derivados de animais obtidos mediante técnicas de clonagem, o Grupo recomendaria que fossem cumpridos requisitos adicionais àqueles adotados com produtos agroalimentares convencionais.
No documento, a organização admite que pode haver razões econômicas para a clonagem, mas, por outro lado, pode ser eticamente inaceitável para algumas pessoas.
O relatório menciona inclusive o dilema que pode representar a consideração dos animais como "um mero instrumento" para o homem, mas neste sentido indica que há opiniões divergentes na sociedade e várias crenças religiosas.
Além disso, o Grupo insiste em que a hipotética criação de animais mediante a clonagem deveria incluir medidas adicionais para evitar o sofrimento ou os maus-tratos contra os bichos e acrescenta que há dúvidas sobre se o aproveitamento econômico gerado por esta atividade justificaria uma infração do bem-estar do gado.
Segundo os especialistas, a União Européia (UE) deveria adotar medidas para conservar a herança genética das espécies animais de fazendas e levar em conta que a clonagem poderia representar uma ameaça para a biodiversidade.
O Grupo é formado por 15 especialistas, entre os quais estão professores de ética, teologia, filosofia e direito.
O relatório de hoje é o segundo divulgado em uma semana por especialistas da UE sobre o procedimento científico, pois a Autoridade Européia para a Segurança dos Alimentos (Aesa) emitiu um parecer mais positivo sobre a clonagem, indicando que carne ou leite de animais clonados são seguros.
O Grupo de Bioética faz referência em sua sentença à Aesa e, neste ponto, diz que faltam outras pesquisas para comprovar as afirmações da Autoridade.
O documento também alude ao direito do consumidor de escolher e pede à CE que estabeleça regras de etiquetagem para assegurar a liberdade do comprador.
A Comissão Européia afirmou que o relatório publicado hoje é de um organismo que presta assessoria, e não o do Executivo da UE.
A CE "examinará com detalhe a opinião do Grupo de Bioética e da Aesa e fará uma consulta ampla" para obter a opinião dos setores interessados e da sociedade sobre a clonagem, segundo a porta-voz de Saúde do bloco, Nina Papadoulaki.
Segundo ela, calcula-se que a pesquisa ou Eurobarômetro que a CE fará entre os cidadãos de países do bloco europeu só deve ficar pronta a partir da segunda metade do ano.
Fonte: EFE