O déficit habitacional em áreas rurais no Brasil é de 1,8 milhão de moradias, segundo o Ministério das Cidades. Buscando alternativas para enfrentar o problema, um projeto coordenado por pesquisadores em São Paulo levou ao desenvolvimento de tecnologias inovadoras que possibilitaram a construção de 42 casas de baixo custo em um assentamento rural no município de Itapeva, no interior do Estado.
O trabalho, desenvolvido no âmbito do projeto Inovarural com recursos do Programa de Tecnologia de Habitação (Habitare), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), levou em conta a sustentabilidade socioambiental da construção, que teve ampla participação das famílias em todas as etapas de produção. Cada casa teve custo aproximado de R$ 9,5 mil.
Pesquisadores do Grupo de Pesquisa em Habitação e Sustentabilidade (Habis) da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da Universidade de São Paulo (USP) foram responsáveis por um dos destaques do projeto: a implantação da marcenaria coletiva Madeirarte, assumida por mulheres e jovens do assentamento.
De acordo com Akemi Ino, professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da EESC, mais do que a melhoria inequívoca na qualidade de vida dos assentados, o ponto central do projeto foi a dimensão política participativa – que se mostrou também um desafio mais difícil que o próprio desenvolvimento tecnológico.
– Todo processo participativo gera conflitos e é bastante desgastante. Mas a experiência que ganhamos não tem preço, porque, além da formação e capacitação de técnicos, estudantes de graduação e de pós-graduação, as famílias envolvidas tiveram suas vidas completamente transformadas – disse Akemi.
Os projetos arquitetônicos e os materiais escolhidos para a construção das casas de 75 metros quadrados – área superior a de programas habitacionais tradicionais – foram discutidos coletivamente com os moradores.
– Algumas das soluções encontradas para a redução do custo envolveram materiais alternativos, com desenvolvimento de uma viga laminada-pregada (VLP), janelas produzidas com madeira de plantios florestais na marcenaria coletiva e a casa de adobe [feita de tijolo de argila seco ou cozido ao sol – explicou.
Grupo interdisciplinar
O Inovarural começou em 1998 com apoio do Programa de Pesquisa em Políticas Públicas da Fapesp. Quando o projeto terminou, em 2004, o grupo responsável buscou recursos junto ao Habitare.
No início, o Habis trabalhava com projetos de habitação voltados para a cadeia da madeira, procurando viabilizar a produção de habitação social com recursos provenientes de plantios florestais. A idéia era aproveitar o imenso potencial florestal da região do sudoeste paulista.
– Mas, embora tenha essa perspectiva de riqueza, a região é precisamente a mais pobre do estado, com o mais baixo índice de desenvolvimento humano. Por isso o grupo ampliou sua perspectiva, englobando o debate da sustentabilidade em suas várias dimensões: sociais, culturais, econômicas, ambientais e políticas – disse Akemi.
O processo participativo não termina com a conclusão do mutirão.
– Os beneficiários do projeto foram capacitados para tomar decisões e ter mais autonomia. Isto é, para exercer sua cidadania – afirmou.
Interdisciplinar, o grupo formado por arquitetos, comunicadores, engenheiros civis e florestais contou com parcerias com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP.
– A Unesp de Itapeva participou na área de engenharia de madeira, a Unesp de Bauru trabalhou com a inovação em alvenaria de adobe e a Esalq entrou com a engenharia florestal e a participação do laboratório de madeira – explicou Akemi.
Segundo a professora da EESC, a experiência ensinou que em futuros projetos será importante incluir sociólogos e psicólogos.
– A capacitação para a participação impôs muitas dificuldades, que poderiam ser tratadas mais especificamente.
Parte das dificuldades ocorreu devido à diferença fundamental entre o mutirão rural e o urbano.
– Os lotes, na área rural, são muito distantes uns dos outros. Ao contrário do que ocorre no mutirão urbano, cada um sabe de antemão qual será a sua casa e isso enfraquece o aspecto coletivo da experiência – disse.
O assentamento, conhecido como Pirituba 2, é dividido em seis agrovilas, com um total de 400 famílias. O projeto foi voltado para duas agrovilas, envolvendo 49 famílias, divididas em sete grupos. O processo participativo começou com a seleção das famílias.
– Trabalhamos com a construção de 42 casas novas e ampliação de outras sete. A demanda veio dos próprios moradores, que organizaram uma lista com os interessados no projeto em outubro de 2002, quando trabalhávamos no primeiro projeto – destacou Akemi.
O grupo foi definido em fevereiro de 2003 e o resto do ano foi dedicado a reuniões quinzenais para discutir onde buscar recursos financeiros.
– Em 2004 as famílias assinaram o contrato de financiamento para o material junto ao programa PSH [Programa de Subsídio à Habitação de Interesse Social ] da Caixa Econômica Federal. O canteiro começou em março, com a implantação paralela da marcenaria coletiva – disse.
A maior parte dos moradores envolvidos com a marcenaria foi de donas de casa na faixa dos 50 anos.
– Isso nos surpreendeu bastante, pois se tem uma idéia de que é um trabalho masculino – disse Akemi.
Os recursos da Finep vieram em 2005, possibilitando as obras propriamente ditas.
– Foi preciso fazer toda a produção do VLT, que é um sistema inovador de cobertura, além de capacitar as marceneiras, que aprenderam a leitura do desenho, a mexer com equipamento e toda a cadeia da madeira, incluindo seleção, monitoramento de secagem, montagem e acabamento – explicou a professora da EESC.
A finalização das casas de três quartos, banheiro, cozinha ampla, sala e varanda foi feita em 2007. Atualmente as famílias estão instaladas. A experiência, segundo Akemi, não pode ser integralmente replicada, exatamente por seu aspecto participativo, mas pode gerar diretrizes para os próximos projetos.
– Estamos relatando todas as fases da experiência em publicações do Habitare. Há um grau de replicabilidade que permitirá acelerar o processo em outros projetos, como estamos fazendo em um assentamento de 77 casas em Serra Azul. Dez já estão cobertas com o sistema inovador que partiu de Pirituba – disse.
Fonte: Fapesp